Quando Chega uma Carta Tua

divagações acabam, e acordo para a vida. Todos os problemas estranhos deixam de ter importância, os misteriosos quadros de doenças se desvanecem, e acabam-se as teorias vazias «de acordo com o estado presente da ciência», como elas são chamadas. Então o mundo fica tão acolhedor, tão alegre, tão fácil de compreender. A minha doce querida não é uma ilusão, ela não tem que ser comprovada por testes químicos; de facto ela pode ser observada a olho nú. E aqui chegámos, onde começámos.

Viver pela Evidência

diabo se não falou já? Se não falámos nós, falaram os outros, que também são gente. e no entanto, de cada vez se fala pela primeira vez, porque o que importa não é o que se sabe mas o que se vê. e ver é ver sempre de outra maneira para aquele que vê. de modo que de novo me intriga a extraordinária desproporção entre o complexo de uma vida e a coisa chilra que dela resulta. e os que nada nos deixaram? Mas uma vida é fantástica pelo que nela aconteceu. e tudo se perdeu.

De que é que Depende a Felicidade?

Ser feliz. de vez em quando, discretamente, pudicamente, ergue-se em ti ainda esta velha aspiração. mas já não são horas de o seres, seriam só de o teres sido. de que é que depende a felicidade? O que falhou avulta quando enfrentamos a pergunta. mas só se não tivéssemos falhado saberíamos se foi isso que falhou. sei o que falhou mas não sei se o que falhou foi isso. a felicidade ou infelicidade têm a sua escala de grandeza. tenho os meus motivos grandes mas os pequenos absorvem-nos.

A Grande Originalidade

É curioso. só se julga profundo o que disser coisas diferentes de toda a gente. e todavia a grande originalidade está em dizer as mesmas coisas, mas ao nível do espanto e maravilha que nos despertam. toda a gente sabe que o homem é mortal, mas poucos vêem isso e se espantam de que seja assim. toda a gente sabe que há bichos e plantas e estrelas e o mais. mas conhecê-lo ao nível do extraordinário que aí existe é raro como ser doido. vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 3'.

A Avaliação de uma Civilização

Quando já se viveu por muito tempo numa civilização específica e com frequência se tentou descobrir quais foram as suas origens e ao longo de que caminho ela se desenvolveu, fica-se às vezes tentado a voltar o olhar para outra direção e indagar qual o destino que a espera e quais as transformações que está fadada a experimentar. a maioria das pessoas foi obrigada a restringir-se a somente um ou a alguns dos seus campos. sigmund Freud, in 'O Futuro de uma Ilusão'.

O Paradoxo da Liberdade

É porque eu sou a minha voz, é porque ela existe minha no instante em que a estou erguendo, que me escapa a sua intelecção. e todo o equívoco do problema da liberdade está aí. porque a liberdade experimenta-se e nada a pode demonstrar. demonstrá-la exigiria que estivéssemos fora de nós, porque na própria demonstração estamos sendo o homem livre cuja liberdade desejávamos provar. porque enquanto entendo uma língua, estou sendo aquela língua dentro da qual estou entendendo a outra.

Carta de Amor

Eu sabia que seria apenas depois de te teres ido embora que iria perceber a completa extensão da minha felicidade e, alas! o grau da minha perda também. ainda não a consegui ultrapassar, e se não tivesse à minha frente aquela caixinha pequena com a tua doce fotografia, pensaria que tudo não teria passado de um sonho do qual não quereria acordar. tem que ser verdade. a tua amorosa fotografia. carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 19 de Junho 1882.

A Ilusão da Cultura Presente

e virá um dia a altura de esse alguém sair também desse riso para outro se instalar nele por sua vez. até que o último riso a ficar seja enfim o da caveira. vergílio Ferreira, in Pensar.

O Amor e o Vinho

Pense-se, por exemplo, na relação que existe entre o bebedor e o vinho.   Existirá no bebedor uma necessidade de partir para um país onde o vinho seja mais caro ou o seu consumo proibido, a fim de estimular por meio de semelhantes obstáculos a sua satisfação decrescente? De modo nenhum. basta escutarmos o que dizem os nossos grandes alcoólicos, como Bócklin, da sua relação com o vinho: evocam a harmonia mais pura e como que um modelo de casamento feliz.

A Moral é Imperiosa e Injustificável

O comportamento moral implica sempre um juiz e a memória nele desse nosso comportamento. assim se admite a nossa responsabilidade perante outrem e a ideia de que nesse outrem perdurará a memória de nós pelos séculos. ora o que é que significa hoje o comportamento dos que viveram há cem anos? e há mil? Quando Deus se dava ao luxo de existir, ele garantiria a memória do que fomos. mas agora que ele desistiu? E todavia a ordem moral continua. os homens célebres compreende-se.

Um Mundo de Vidas

Nós vivemos da nossa vida um fragmento tão breve. não é da vida geral - é da nossa. É em primeiro lugar a restrita porção do que em cada elemento haveria para viver. porque em cada um desses elementos há a intensidade com o que poderíamos viver, a profundeza, as ramificações. nós vivemos à superfície de tudo na parte deslizante, a que é facilidade e fuga. o resto prende-se irremediavelmente ao escuro do esquecimento e distracção. mas é um só o que se escolheu ou nos calhou. foi uma só.

Quanto Mais se Ama Mais Fraco se É

Nas relações amorosas o único sentimento que não funciona é o da piedade. quando é o caso de que se devesse manifestar, o que surge não é a piedade mas o asco ou a irritação. eis porque em relação alguma se é tão cruel. todos os sentimentos têm o seu contraponto. excluída a piedade, a crueldade não o tem. por experiência se pode saber quanto se sofre quando não se é amado. mas isso de nada vale quando se não ama quem nos ama: é-se de pedra e implacável. o jogo do amor é um jogo de forças.

Cartaz rasgado da candidata às eleições presidenciais na França, Marine Le Pen, na cidade de Saint-Nazaire

Cartaz rasgado da candidata às eleições presidenciais na França, Marine Le Pen, na cidade de Saint-Nazaire Foto: Damien Meyer/AFP Subscribe to RSS headline updates from: Powered by FeedBurner Ajude a manter o Poiétiko! Via E-Mail / Feed / Google Ter o dom da simpatia. É das coisas que mais se invejam. tem, como tudo, a sua técnica, mas os efeitos são sempre problemáticos. há o... brasil.

Não te Queixes

Não te queixes. recolhe em ti a amargura, não a disperses, não a esbanjes com os outros. ela é tua, nasceu de ti, da tua miséria, pertence-te como os ossos e as vísceras. concentra-te nela, absorve-a, faz dela a tua grandeza. porque só se é grande pelo sofrimento, não pela futilidade do prazer. as pedras não sofrem, Cristo esteve «triste até à morte». tem desprezo pelos homens felizes, porque dos homens felizes «não reza a história». e se és homem de verdade, tu a aguentarás.

Para Quê e Porquê

Vê se não insistes muito em perguntar porquê ou para quê, se não queres ficar paralítico. Porque a maior grandeza da vida tem o valor nela própria e não fora dela. Não se pode justificar a vida senão nela. Ou a luz. Ou a fraternidade humana. Ou a justiça. E o mais assim. E é o que é indiscutível que pode fundar um comportamento e uma razão de se estar vivo.   É fácil ainda inventar ou ter razões para se atentar contra o que é indiscutível. Porque se é indiscutível, não se pode discutir.

O Homem e a Máquina

À técnica seria absurdo que a recusássemos, lhe recusássemos a espantosa facilitação da vida, por mais que a essa vida ela perturbe - como aos seus doutrinadores. Uma máquina é pura, desde a inocência com que se nos revela, ou seja precisamente a exterioridade em que se nos dá. Mas uma inocência é uma abertura à realização do que o não é. O destino de uma máquina tem o destino que lhe dermos, e um dos piores é o finalizá-la nela própria. Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo'.


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